
cinema e educação
Mary e Max

Sinopse
Mary Daisy Dinkle é uma garota solitária de oito anos, que vive em Melbourne, na Austrália. Max Jerry Horovitz tem 44 anos e vive em Nova York. Obeso e solitário, ele também é autista. Mesmo com tamanha distância e a diferença de idade entre eles, Mary e Max desenvolvem uma forte amizade, que transcorre de acordo com os altos e baixos da vida.
Ficha técnica
Animação, baseada em fatos reais
Austrália, 2009
92 minutos
Direção e roteiro: Adam Elliot
Elenco principal: Toni Collette, Philip Seymour Hoffman, Eric Bana, Barry Humphries
Onde assistir:
ORTEGA, Francisco. Deficiência, autismo e neurodiversidade. Ciência & Saúde Coletiva. 2009. 14(1):67-77
ELLIOT, Adam. Mary e Max. Austrália, 2009
ORTEGA, Francisco. Deficiência, autismo e neurodiversidade. Ciência & Saúde Coletiva. 2009. 14(1):67-77
ELLIOT, Adam. Mary e Max. Austrália, 2009
Deficiência, autismo e neurodiversidade a partir do cinema
“Não me sinto doente, defeituoso, ou necessitado de cura, eu gosto de ser um aspies.” Essa é uma das falas do personagem Max, que nos abre uma discussão de grande importância não só sobre autismo — tema retratado no filme —, mas sobre a deficiência. Durante muitos anos, a deficiência, a partir de um modelo exclusivamente biomédico, era vista como um problema individual, o que contribuiu para a construção de um imperativo de normalidade que excluiu e segregou essas pessoas dentro da sociedade. Após o estabelecimento do modelo social da deficiência, que entende que a deficiência encontra-se na sociedade e não no sujeito, os movimentos sociais passaram a perceber que as barreiras sociais e todas as outras desvantagens experimentadas por eles não era algo natural, mas algo histórico. Foi dessa maneira, e por meio da interseccionalidade do movimento das pessoas com deficiência com outros movimentos sociais, que esses indivíduos passaram a construir uma identidade, olhando para si como pessoas com deficiência. Isso permitiu “um deslocamento do discurso dominante da dependência e anormalidade para a celebração da diferença e o orgulho da identidade deficiente” (ORTEGA, 2007, p.69).
Não foi diferente dentro do movimento autista. No filme, Mary dedica sua vida acadêmica a achar uma cura para o autismo de seu amigo, Max. Sem sua permissão, escreve um livro sobre sua condição dedicado a encontrar uma cura para sua suposta doença. Inicialmente, o autismo era tido como culpa dos pais, especialmente das mães, por sua suposta má relação com os filhos (ibidem, p.70). Com o tempo, os pais foram desresponsabilizados por conta do “deslocamento do modelo psicanalítico e a aproximação das neurociências…”(ibidem, p.71). Com o início dos movimentos neurodiversos, os discursos pró-cura passaram a ser vistos com outros olhos, isso porque a neurodiversidade “rejeita as explicações psicológicas negativistas e culpabilizante, afirmando um autismo cerebral, na base de uma identidade autista vivenciada com orgulho”(ibidem). O movimento autista neurodiverso defenderia que a fúria de Max quando tomou conhecimento da existência do livro não seria à toa, pois, para eles, “ser autista não é uma doença e sim uma diferença, a procura pela cura constitui uma tentativa de apagar a diferença, a diversidade” (ibidem, p.72). Em contrapartida, há famílias de autistas que defendem o acesso a terapias comportamentais, o que, para o movimento neurodiverso, seria reconhecer o autismo como uma doença (ibidem, p.73 e 74).
De qualquer maneira, não se deve cair na dicotomia do bom e do mal. Enquanto um lado acredita nas diferentes formas de subjetividade humana, o outro — que possui a linha de frente formada, principalmente, por família de crianças autistas —, talvez queira, de fato, submeter esses sujeitos ao máximo ao imperativo da normalidade para que eles sejam mais aceitos em uma sociedade intolerante as diferentes possibilidades de existência humana. Porém, hoje, assim como existem terapias que procuram “curar” esses indivíduos, há outras terapias que ajudam profundamente o sujeito a potencializar ao máximo suas habilidades sem necessariamente buscar “normalizá-lo”. Portanto, é necessário escutar todos os lados do movimento autista.
Contudo, embora essas divergências tragam vários questionamentos em relação à maneira como enxergamos o autismo na sociedade, o filme vai defender o olhar neurodiverso, explicitando a potência do cinema de nos fazer pensar. Por meio de uma experiência estética que nos provoca o tempo inteiro, o filme nos traz uma visão anti-cura e de respeito as diferentes subjetividades existentes na sociedade, de modo a nos fazer questionar sobre nossas próprias convicções a respeito do TEA e da deficiência, convicções essas, muitas vezes, baseadas em ideias capacitistas. Dessa forma, entende-se a importância de ver o cinema como uma vivência que mobiliza, entre outros elementos, a mudança, visto que o impacto social que um filme como “Mary e Max” pode causar é de extrema importância para a quebra de estereótipos e preconceitos construídos ao longo do tempo. O cinema educa.
Comentário de Sophia Teixeira de Oliveira, aluna de Pedagogia da Faculdade de Educação da UnB e pesquisadora do (In)Vis.
Disciplina Cinema e Pessoa com Deficiência, FE/UnB, 2023.
Comentário do filme Mary e Max
Mary e Max - Uma Amizade Diferente (2009) é um filme dirigido por Adam Elliot, no estilo de stop motion, que aborda temas como amizade, neurodiversidade, amadurecimento, entre outros. Ele conta a história de Mary, uma criança australiana que ama assistir ao desenho “Noblets” e tem várias perguntas sobre a vida, e Max, um homem estadunidense, solitário, que vive com seus animais de estimação e seu amigo imaginário, Ravioli. A vida dos dois se encontra quando Mary envia uma carta a um endereço que achou nos correios, que acaba chegando em Max, em Nova York.
A trajetória de vida de Max é marcada por violências sofridas devido a sua neurodivergência, já que ele foi internado algumas vezes e já explicitou que se sente “defeituoso”. O filme abre uma discussão muito abordada hoje em dia, a “cura do autismo”, e a visão da neurodiversidade enquanto “doença”, sendo assim, algo a ser “curado”. O modelo biomédico sustenta essa ideia de que a deficiência é um problema do indivíduo, portanto, numa busca incessante pela diagnose, ele deve também se adaptar à sociedade e buscar a melhoria para a sua condição, o que contribuiu para a construção da visão negativa da deficiência na sociedade. Em contrapartida, o modelo social da deficiência surge como uma “alternativa ao modelo hegemônico médico individual” (Ortega, 2007, p. 68), e enxerga a deficiência não como uma tragédia pessoal, mas sim como um problema “social e político” (Ortega, 2008, p. 68). O problema não está na deficiência, e sim na sociedade que enxerga isso como uma desvantagem.
Em dado momento do filme, Max veste uma camiseta com os dizeres “Aspies for freedom” (em tradução livre: ‘Aspies’ pela Liberdade), o que referencia o coming out deficiente: o fato de o personagem se reconhecer e se reafirmar autista faz parte da sua construção de identidade, consequentemente, a rejeição da cura. Ele diz: “Eu não me sinto doente, defeituoso ou necessitado de cura, eu gosto de ser um aspies”. Ortega (2007):
Se a deficiência é um fenômeno criado socialmente e perpetuado culturalmente, então também a cura e os valores a ela associados são igualmente socialmente construídos. Se você não acreditar que há deficiência, se não acreditar que há algo que necessita ser ‘curado’ ou prevenido geneticamente – então você será igualmente libertado da necessidade de cura.
Max não tinha essa necessidade de “ser curado”, já que nunca viu como um problema o que tinha. Sua amiga Mary, por sua vez, parte em uma busca para a cura do autismo, dedicando seus estudos à escrita de um livro, que foi publicado contendo as cartas trocadas com o homem, mas sem sua permissão.
No que se diz respeito à educação, hoje em dia encontra-se uma normalização das pessoas com deficiência, de modo que o modelo de educação especial tende a remediar, melhorar, consertar a deficiência das crianças e estas são forçadas a enfrentar sua condição. Já um modelo de educação inclusiva, baseado na neurodiversidade, enxerga respeitosamente a deficiência apenas como uma diferença que faz parte das pessoas, de forma que suas qualidades são exaltadas.
O cinema fala. Não como um texto, uma música ou uma foto, mas com uma linguagem própria, educando e impactando as pessoas, tornando-se assim uma alternativa para criar uma nova percepção. O cinema, através de sua experiência estética, educa e fala com as pessoas. Filmes como Mary e Max contribuem para derrubar estereótipos e construir conhecimento.
Comentário de Roberta Rayane, aluna de Pedagogia da Faculdade de Educação da UnB.
Disciplina Cinema e Pessoa com Deficiência, FE/UnB, 2023.