
diálogos

CLARA MAR
Ativista na luta pelos direitos das pessoas com deficiência, escritora, pesquisadora do (In)Vis.
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O medo do cinema:
dos processos de invisibilização da pessoa com deficiência nas imagens cinêmicas
Sempre tive medo de ser representada no cinema. Sempre tive medo de ver filmes em que houvesse pessoas com deficiência. Ao mesmo tempo, esse anseio sempre tomou conta de mim. Em uma sala gélida e escura, cheia de gente desconhecida, o que passa na tela precisa, de algum modo, nos envolver. Caso contrário, você se perde. E, para envolver, é necessário que haja, de algum modo, reconhecimento. Não há envolvimento sem reconhecimento, pois é o que nos aproxima e o que nos atrai. E quando se trata de filmes com personagens com deficiência, eu raramente sinto atração.
As telas têm uma função: tornar visível. E só é possível tornar visível o que vemos. Só é possível representar um dragão porque em algum momento ele nos já foi apresentado, assim como um monstro ou um fantasma. Às vezes, a natureza nos apresenta formas e figuras, outras vezes, nossa própria imaginação. Mas não é possível representar algo ou alguém que nunca nos foi apresentado ou que nunca chegou à nossa mente. Desse ponto, a arte cinêmica transforma o que vemos ou o que imaginamos em histórias. E os jeitos de se contar uma história são inúmeros. Inúmeros e humanos. A arte não acontece por si, não é um ser. Arte é criação, coisa de gente. E gente é feita de existência. É aí que me preocupo. Onde está minha existência? Em que mãos ela foi colocada? E como ela aparece?
A deficiência parece sempre ter aparecido no cinema, carregada de pretextos, de modelos. E há vários. O modelo de deficiência mais aparente nos primórdios do cinema foi o da religião e o da biomedicina. A deficiência como monstruosidade, abraçada pela condenação do pecado eclesiástico. Depois do iluminismo, a deficiência como defeito, como falha, como resultado de uma assinatura médica. Depois das guerras, a deficiência como heroísmo, como superação. A deficiência, ainda.
E esses modelos se entrecruzam nos rolos fílmicos até hoje. Mas o meu incômodo está relacionado também com algo anterior à deficiência. Com alguém, melhor dizendo. A pessoa. Quando vejo filmes com personagens com deficiência, tenho a sensação de que a deficiência é sempre o tema central dos filmes, e a personagem é acessório. As estéticas utilizadas trazem-me tal angústia. Talvez isso deva-se ao fato de que nós ainda somos vistos ou como objetos de estudos ou como grupos isolados, os quais só são bem-vindos pela curiosidade do espectador.
Por essa ótica, a abordagem trabalhada no cinema serviria para atrair um público sem deficiência, que apenas se interessaria por histórias de personagens com deficiência em dois cenários: o da monstruosidade ou o da extraordinariedade — ambos encharcados de drama. Talvez isso ocorra justamente pela falta de cuidado no desenvolvimento da humanidade das personagens. Os enredos acabam então por invisibilizar a pessoa humana, apenas evidenciando uma de suas características, que é deficiência.
Uma das consequências desse tipo de abordagem é a questão do isolamento. Geralmente não ocorre a personagem com deficiência no mundo, mas sim a personagem com deficiência contra o mundo, como numa espécie de ilha. Não conseguimos sequer chamar de margem aquilo que nos separa do mundo, pois quem está numa margem tem um lado de terra para adentrar. Numa ilha, o contato com outras vidas se exime. Sendo assim, em filmes como A luta de Barbara e Alan, Pódio para Todos e Meu Nome é Daniel, apesar da tentativa de apresentar a deficiência como algo humano, ela se sobrepõe a partir do discurso de enfrentamento social, às vezes até relatado com pontos aparentemente positivos, em afirmações de capacidade direcionadas ao espectador, como “eu sou atleta, eu consigo me relacionar”.
A tragédia em perspectiva é outro ponto importante no debate. As abordagens em que a personagem adquire a deficiência ao longo da vida parecem ter um tratamento especial nas telas. Provavelmente pelo modelo de deficiência surgido a partir dos heróis de guerra. Pelo viés da superação, as histórias de personagens que nascem sem deficiência e a adquirirem ao longo da vida parecem despertar uma emoção bem maior, e consequentemente serem mais admiradas do que as histórias de pessoas que nascem com deficiência. A tragédia de adquirir uma deficiência durante a vida se torna um recurso cinemático. Por outro lado, as histórias de pessoas que nascem com deficiência não parecem chamar tanta atenção, as pessoas que as cercam, como família e amigos, aparecem mais.
Depoimento realizado para a pesquisa em 19 de abril de 2024.