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Abstrato Geométrico Minimalista

Feeling Through     

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Sinopse
Feeling Through acompanha o jovem Tareek enquanto ele caminha pelas ruas de Nova Iorque depois de uma festa. No caminho, o rapaz encontra um homem surdocego com uma placa pedindo ajuda para atravessar a rua. Os dois acabam passando parte da noite juntos e criando uma inesperada amizade.

Ficha técnica
Ficção

Estados Unidos, 2019

19 minutos

Direção, roteiro e montagem: Doug Roland

Diretora de fotografia: Eugene Koh

Edição de Som:

Onde assistir: www.youtube.com/watch?v=h1CqzntEZZ8:

Site: www.feelingthrough.com

LEANDRO, Anita. Posfácil - uma questão de ponto de vista. Revista Contemporânea de Educação, vol. 5, n. 10, jul/dez 2010

ROLAND, Doug. Feeling Through. EUA, 2021

O cinema como ponto de vista

Tanto o cinema quanto a pedagogia são construções políticas que exprimem uma visão de mundo. Esse é o ponto de partida da autora Anita Leandro (2010) para explicar o projeto de Alan Bergala para as escolas francesas nos anos 2000, que se baseava na pedagogia do cinema. A arte cinematográfica, em suas dimensões estética e ética, pode, desde os anos escolares iniciais, proporcionar uma experiência sensível que vai muito além dos estudos de conteúdo, linguagem e semiótica. De acordo com a autora, os estudantes aprendem com a visão e os questionamentos do próprio cineasta, ressaltados pelos educadores. “Em vez da pedagogia com imagens, simplesmente uma pedagogia da própria imagem”, diz Leandro.

Uma das formas de aplicar essa pedagogia da própria imagem nas escolas é analisar o ponto de vista dos filmes e diretores. Por meio dele, podemos acessar a ética do cineasta e a relação que ele estabelece entre o filme e quem lhe assiste, abordando “ao mesmo tempo a forma cinematográfica (os planos, as sequências, o filme na sua totalidade enquanto objeto estético) e o modo como o espectador se relaciona com os personagens (tanto na ficção quanto no documentário)” (Leandro, 2010).

 

E qual seria essa pedagogia intrínseca ao filme Feeling Through? Sabemos que, como arte, uma obra cinematográfica pode ter várias interpretações, a depender das experiências de vida e do repertório de cada espectador. Além disso, destacamos que hoje a experiência proporcionada por um filme pode variar com a forma de exibição, pois assistir a uma obra na telona de uma sala escura do cinema é bem diferente de ver em casa em uma plataforma de streaming, que pode ser mais diversa ainda se exibida na televisão ou no celular, por exemplo. Dessa forma, a experiência com o filme de Doug Roland aqui relatada pode ser comum ou não a outros espectadores.

 

Um dos aspectos que mais chamou a atenção em Feeling Through foi a comunicação entre Tareek e Artie. Na dinâmica entre eles, o toque sempre está presente, algo muito incomum para algumas culturas, como a estadunidense, em que o filme foi produzido. Acompanhamos Tareek descobrindo as possibilidades da linguagem por meio do toque: a mão no ombro para significar presença, o braço para guiar, o desenho das letras na mão, os tapinhas na perna para dizer que está tudo bem, o abraço afetuoso selando a amizade. Além dos atores, o diretor também dirige o espectador, como dizia o mestre do suspense Alfred Hitchcock.

 

Nos colocamos no lugar de Tareek, compartilhamos de seu ponto de vista e pensamos em como reagiríamos se encontrássemos com uma pessoa surdocega pedindo ajuda. E a história se torna ainda mais interessante quando descobrimos que o diretor viveu essa experiência em uma noite em Nova Iorque. O seu ponto de vista está impregnado em sua obra.

 

Sobre a ética, consideramos que o ponto principal de Feeling Through é o personagem surdocego ser interpretado por uma pessoa com deficiência. Não é mais aceitável falar sobre a vida das pessoas sem que elas estejam presentes. Seria excludente e nada representativo o ator ser uma pessoa sem deficiência.

 

Nesse ponto, podemos fazer uma analogia com a memorável frase de Jean-Luc Godard citada por Leandro (2010): “travelling é uma questão de moral”. A escolha do diretor de Kapo por privilegiar a estética em detrimento da ética comprometeu todo seu trabalho e carreira. Ética e estética não se separam, estão amalgamadas. Por isso, a escolha de um ator surdocego torna Feeling Though uma obra tão importante: uma ação que vai ao encontro do modelo social da deficiência. Toda obra de arte é política, incluindo o cinema.

 

Por outro lado, questionamos a razão de o diretor ter escolhido um personagem negro, sem moradia fixa e sem referências sobre sua família para ser a pessoa que encontra Artie. Além das características dos personagens, a ambientação e a trilha sonora melancólica contribuem para o sentido de vulnerabilidade que o diretor imprime em Tareek e Artie. Essa construção induz os espectadores a se identificarem com o drama, o que acontece em muitos filmes da lógica comercial hollywoodiana.  

 

Pretendemos, com essa pequena análise de Feeling Through, introduzir o ponto de vista do diretor Doug Roland e refletir sobre como as escolhas de um cineasta formam as dimensões estética e ética de um filme. “O cinema, no princípio, não era o verbo, mas o ponto de vista. E continua sendo” (Leandro, 2010). Por meio do ponto de vista de Doug Roland, o espectador experiencia as emoções de sua obra e, principalmente, a alteridade.   

Comentário de Mariana Barros, aluna de Pedagogia da Faculdade de Educação da UnB e pesquisadora do (In)Vis.

Disciplina Cinema e Pessoa com Deficiência, FE/UnB, 2023.

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