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Abstrato Geométrico Minimalista

Crip Camp     

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Sinopse
O acampamento de verão Jened, destinado a jovens com alguma deficiência nos anos 1950, é o início de uma revolução. Os campistas, anos depois, lutam pelos direitos civis das pessoas com deficiência e conseguem mudanças na legislação dos Estados Unidos. James Lebrecht, um dos diretores e roteiristas do filme, foi campista do Jened.

Ficha técnica
Documentário

Estados Unidos, 2020

106 minutos

Direção e roteiro: James Lebrecht e Nicole Newnham

Montagem: Andrew Gersh e Eileen Meyer

Elenco principal: Larry Allison, Dennis Billups, Judith Heumann, James Lebrecht, Evan White

Onde assistir: Netflix

FANTIN, M. (2018). Experiência estética e o dispositivo do
cinema na formação. Devir Educação, 2(2), 33–55

NEWNHAM, Nicole e LEBRECH, James.Crip Camp: revolução da inclusão. EUA, 2020

Dissertando sobre Crip Camp

Tudo se inicia a partir de um inovador acampamento de verão, o Camp Jened, na década de 70 nos Estados Unidos. Através de uma proposta progressista, em termos de uma verdadeira inclusão das pessoas com deficiência da época, esse acampamento ofereceu um ambiente propício para que muitos ativistas ganhassem autonomia, autoconfiança e uma rede de apoio necessária para entrarem na luta pelos direitos civis das pessoas com deficiência. Por meio de relatos atuais de campistas e monitores e de gravações e registros feitos ao longo dos anos em que se passa a história exposta, o documentário relata o modo como algumas pessoas com deficiência que participaram do acampamento, destacando aqui Larry Allison, Judith Heumann, James LeBrecht, Denise Sherer Jacobson e Stephen Hofmannao, ao notarem que é possível sim haver um local na qual se sintam ouvidas, vistas, valorizadas, acolhidas, respeitadas em suas diversidades, especificidades e subjetividades, tornam-se ativistas em prol da luta pelos direitos das pessoas com deficiência.
 

Uma frase do documentário proferida por James LeBrecht em muito nos toca: “Não lutará por algo cuja existência desconhece", sendo justamente esse o sentimento que a obra cinematográfica nos transmite. O isolamento, o desconhecimento, a falta de perspectiva, em conjunto com os mais diversos tipos de barreiras e obstáculos, sendo muito destacado no documentário as barreiras arquitetônicas, legislativas e educacionais, imobilizam as pessoas excluídas e silenciadas pela sociedade afim de não lutarem por seus direitos. Ao entrarem em contato com outra realidade, outras maneiras de ser e estar no mundo, outros debates, trocas e espaços de liberdade e acolhimento sincero, passam a enxergar e combater as injustiças que lhes ocorrem fora dessa “utopia”.
 

O documentário nos faz refletir muito sobre o poder que a imagem, em consonância com a (in)visibilidade, possui sobre todos nós: James afirma que queria ser parte do mundo porém não se via nele; também relata, ao chegar no acampamento, não sabia diferenciar os campistas dos monitores. Judy afirma que, ao ver as horrendas imagens da Instituição de Willowbrook na televisão, se afligiu por pensar que qualquer um dos campistas poderia ter parado lá; também, na sua infância, se choca ao perceber, pela primeira vez, que algumas crianças não a viam como Judy, e sim como alguém doente; uma reportagem falando sobre como as pessoas com deficiência são retratadas nos cinemas é mostrada, destacando como esse dispositivo pode construir imagens dessas pessoas que giram em torno do medo, da pena ou da aversão; os ativistas, ao lutarem pelos seus direitos civis, buscam visibilidade das mídias afim de chamarem a atenção das grandes autoridades legais, no entanto, recebem pouca cobertura televisiva.
 

Nesse sentido, o documentário nos leva a refletir acerca desse dispositivo de imagens que fortemente influencia as nossas experiências e os nossos modos de ser e agir no mundo. Ao ponderar sobre esse assunto, podemos conectar tal aprofundamento às questões trabalhadas por Clarinha Marques, em uma entrevista dada a um grupo de pesquisadoras. Clarinha, também ativista, palestrante e influencer pela causa da inclusão das pessoas com deficiência, afirma que considera que a invisibilidade ocorre quando colocamos a deficiência em primeiro lugar – tornando, assim, a pessoa invisível – apagando a personalidade da pessoa com deficiência. Afirma, concomitantemente, que tudo aquilo que vê passando na televisão lhe traz uma sensação péssima, ou de hipervalorização – o caso de heroísmo extremo – ou hipovalorização – no caso do coitadismo. O documentário, assim, traz novas perspectivas, mudanças de paradigmas muito necessárias, pois toca no nosso emocional.
 

A partir dessas reflexões, foi possível conectarmos tais reflexões e aprofundamentos ao texto de Monica Fantin (2018), “Experiência estética e os Dispositivos do cinema na formação”. “As telas geram uma intensa atividade mental e uma boa parte desta atividade tem lugar na mente submergida, no labirinto das emoções. E nisto reside sua força sedutora e sua potência socializadora” (FERRÉS, 2014, p.19 APUD FANTIN, 2018, p.43). Esse trecho revela o impacto que as telas e, com elas, a visibilidade, possuem em nossa sociedade e nas subjetividades contemporâneas. Podemos afirmar, nesse viés, que tal experiência imagética estética “une beleza, estranhamento, arte, cultura, corporeidade e que promove as mais diversas formas de relação. Experiência de encontro, formação e significação que foi construída no contexto de uma interpretação singular” (FANTIN, 2018, p. 53).
 

Com isso, compreendemos o cinema como uma linguagem repleta de lutas de sentido, podendo ser tanto um instrumento de ruptura como de manutenção de padrões hegemônicos. Percebo, por fim, a importância que filmes que abrem o nosso horizonte possuem em nossas vivências e em nossa formação como profissionais de educação, em uma trajetória de reformulação de conceitos e quebras de paradigmas sociais em relação às pessoas com deficiência.

Comentário de Bianca Luzia Fortini Arguelles, aluna de Pedagogia da Faculdade de Educação da UnB.

Disciplina Cinema e Pessoa com Deficiência, FE/UnB, 2023.

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