
cinema e educação
Big Bang

Sinopse
Chico é um homem com nanismo que trabalha consertando fornos. Solitário, ele vive um conflito interno contínuo, resultado do sentimento de abandono familiar e da exclusão social que normalmente o persegue. Face a um sistema que o exclui, não lhe resta outra alternativa que não seja a de se colocar em resistência.
Ficha técnica
Ficção
Brasil/França, 2022
14 minutos
Direção: Carlos Segundo
Roteiro: Carlos Segundo
Fotografia: Roberto Chacur
Montagem: Carlos Segundo e Jérôme Bréu
Elenco principal: Giovanni Venturini e Aryadne Amancio
Onde assistir: GloboPlay
LEANDRO, Anita. Posfácil - uma questão de ponto de vista. Revista Contemporânea de Educação, vol. 5, n. 10, jul/dez 2010
SEGUNDO, Carlos. Big Bang. Brasil/França, 2022
Cinema, ética e estética
Quando assistimos à obra Big Bang, logo percebemos que o filme exige que seu espectador reflita sobre o ponto de vista de Chico. É esse ponto de vista, através do posicionamento da câmera e de seu enquadramento que, desde o início da narrativa, provoca estranhamento na ideia de um olhar universal. Trata-se de um elemento narrativo importante, assim como o som, os diálogos e o próprio desenrolar dos acontecimentos.
Através do enquadramento, nos aproximamos da visão que Chico tem das pessoas e do mundo (ou como imaginamos que ele tenha). É desse lugar que percebemos que o protagonista mal se comunica com as pessoas em seu dia a dia, estabelece conversas precárias que nunca se realizam cara a cara com elas. As pessoas, por outro lado, raramente se preocupam em enxergá-lo. Ele também é raramente chamado pelo nome. Como se não fizesse diferença, ele é sempre reconhecido como “pequeno”, “amiguinho” e, até quando Chico sofre um acidente que poderia ter tirado sua vida, o “sobrevivente do big bang” não tem nome, é apenas chamado de “anão”.
Os assuntos que são abordados durante a narrativa do filme são importantes para que nós possamos entender o cotidiano de Chico, mas podemos ir além disso. Anita Leandro (2012) discute em seu texto “Uma questão de ponto de vista” a proposta do projeto criado por Alain Bergala na França. Nessa proposta, Bergala propõe uma nova pedagogia da imagem e afirma que podemos ir além de analisar o drama narrado, assim identificando os métodos e os questionamentos do autor da obra analisada. Anita afirma que a escolha estética é também uma escolha ética. Então, isso nos faz questionar se, por acaso a escolha do diretor fosse escalar um ator que não fosse uma pessoa com deficiência para desempenhar esse papel, será que o resultado final do filme continuaria o mesmo?
A opção do diretor do curta, Carlos Segundo, de selecionar uma pessoa com deficiência para ser o personagem principal do curta foi uma questão ética, porque não é incomum que pessoas sem deficiência interpretem o papel de uma pessoa com deficiência, o que inviabiliza tais sujeitos, excluindo-os da sua própria narrativa. Como consequência, a abordagem estética do filme foi influenciada por essa escolha.
As escolhas de como apresentar o curta estavam, também, sob o olhar de Giovanni Venturini, o Chico. Isso nos faz concluir que não há mais espaço para que filmes que abordam narrativas sobre pessoas com deficiência não tenham sua presença ativa. Pessoas sem deficiência não deveriam atuar tal qual a estrela de Big Bang. É necessário que pessoas com deficiência tomem o controle da narrativa e sejam visibilizadas nos filmes que falam sobre eles mesmos.
Comentário de Maria Eduarda Silva de Souza, aluna de Pedagogia da Faculdade de Educação da UnB.
Disciplina Cinema e Pessoa com Deficiência, FE/UnB, 2023.